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  • Luciano Cirumbolo

Acordar para Novas Realidades

Acordar e chorar com a chuva. Não é apenas o tempo fechado lá fora que nos deprime, há algo denso e antigo que também está se desprendendo de nós. Ir até a janela e observar o mundo é uma constatação de recomeço e sobrevivência. Reiniciamos mais um dia e estamos fazendo parte de uma trama densa de eventos que parece não ter contorno, não conseguimos enxergar uma borda. Sem palavras ou em lágrimas na janela, percebemos que estamos nos despedindo de amigos, de familiares, de locais que gostávamos de estar, da mesa de trabalho, da comida dos outros, da esquina aglomerada, do parque aberto, das viagens sem pressa. Percebemos que deixamos pessoas e hábitos pelo caminho, sentindo a tristeza que uma parte de nós igualmente ficou no meio de cada objeto ou local de afeto. Lembranças estão se desprendendo de nós e parte de nosso ego sofre por querer ficar ligado a elas. Enquanto o "novo momento" nos chama, estamos ainda limpando a casa interior e tentando nos segurar em aparatos antigos. Não percebemos que é uma mistura de apego e luto. Queremos o que era bom, mas não percebemos que alguns elementos já morreram e outros nos esperam para que possam ressurgir transformados. É difícil morrer junto com nossas lembranças e declarar amor ao desapego. Não notamos ainda que a cada dia vivendo a concretude dos fatos externos, somos convocados a alterar algo em nós na intimidade. Como dói olhar para isso. Apego, luto e criatividade são tarefas para hoje. Se esses temas não forem encarados por cada um de nós, eles irão reaparecer na próxima página do amanhã nos indagando uma melhor posição ou sentimento de entrega. Não tem como escapar, a transformação ocorre simultaneamente dentro e fora de cada sobrevivente.



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